元描述: Descubra a história fascinante do lendário Cassino de Canela no Rio Grande do Sul. Explore sua arquitetura icônica, era de glamour, fechamento e o renascimento como centro cultural, com dicas de turismo local.

O Cassino de Canela: Uma Jóia da Serra Gaúcha

No coração da Serra Gaúcha, a cidade de Canela, no Rio Grande do Sul, guarda nas memórias de seus moradores mais antigos e nas linhas de sua arquitetura imponente os ecos de uma era de glamour e efervescência cultural: a era do lendário Cassino de Canela. Muito mais do que uma casa de jogos, o Cassino foi o epicentro da vida social e turística da região entre as décadas de 1940 e 1950, atraindo a nata da sociedade brasileira e internacional com sua promessa de entretenimento sofisticado, gastronomia refinada e espetáculos de alto nível. Sua história se entrelaça com o desenvolvimento do turismo no sul do Brasil, representando um capítulo crucial que transformou uma pacata cidade serrana em um destino cobiçado. Este artigo mergulha nas origens, no auge, no polêmico fechamento e no legado atual deste ícone, explorando não apenas os fatos históricos, mas também o impacto cultural e turístico que seu edifício, mesmo sob nova função, continua a exercer. A narrativa do Cassino de Canela é um testemunho das transformações sociais e políticas do Brasil, um símbolo de um tempo onde o charme europeu encontrava a paisagem dramática dos cânions gaúchos.

  • Marco do turismo na Serra Gaúcha no século XX.
  • Polo de atração para a elite nacional e estrangeira.
  • Exemplo arquitetônico único com influência art déco e moderna.
  • Palco de transformações políticas e sociais no Brasil.
  • Símbolo de reinvenção e preservação do patrimônio histórico.

Origens e Construção: O Sonho de um Visionário

A gênese do Cassino de Canela está intimamente ligada à visão empreendedora de um homem: o coronel e industrial João David de Souza. Na década de 1940, percebendo o potencial turístico da região serrana, com seu clima ameno e paisagens deslumbrantes, ele idealizou um empreendimento que colocaria Canela no mapa dos destinos de luxo do país. O projeto foi ambicioso desde o início. A construção, iniciada em 1943 e concluída em 1946, demandou recursos vultosos e enfrentou os desafios logísticos da época, com materiais sendo transportados por estradas precárias. O arquiteto responsável, de acordo com registros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE), teria sido influenciado pelas correntes art déco e modernista que floresciam no período, criando um edifício que era, em si mesmo, uma atração. Com linhas geométricas marcantes, fachada imponente e interiores espaçosos, o cassino foi concebido para impressionar. Não era apenas um local para jogos; era um complexo de entretenimento que incluía salão de baile, restaurante de primeira linha, bar e terraços com vista privilegiada. Sua inauguração, um evento social de grande repercussão, marcou o início de uma era dourada para a cidade.

O Contexto dos Cassinos no Brasil

Para entender a magnitude do Cassino de Canela, é crucial contextualizá-lo dentro do fenômeno dos cassinos no Brasil. Entre 1920 e 1946, os jogos de azar eram legalizados e operavam em diversas cidades, como Petrópolis (RJ), Santos (SP) e Poços de Caldas (MG). Estes estabelecimentos eram vetores de desenvolvimento local, gerando empregos, atraindo investimentos e fomentando uma cultura de entretenimento associada à alta sociedade. O cassino de Canela nasceu neste ambiente, mas com uma particularidade: sua localização em uma região de colonização predominantemente alemã e italiana, com uma cultura distinta dos grandes centros urbanos. Ele trouxe para o Rio Grande do Sul um pedaço do glamour internacional, funcionando como uma ponte entre a cultura local e os hábitos cosmopolitas. Especialistas em história do turismo, como a Prof. Dra. Ana Lúcia G. de Oliveira, da Universidade de Caxias do Sul, afirmam que o cassino foi um agente modernizador fundamental, acelerando a infraestrutura hoteleira e de serviços na Serra Gaúcha em um período pós-Segunda Guerra Mundial onde o mundo buscava novos refúgios de lazer.

A Era de Ouro: Glamour, Celebridades e a Vida Noturna

Os anos de operação do Cassino de Canela, particularmente entre 1946 e 1949, foram marcados por uma atmosfera de efervescência incomparável. O salão principal, com seu piso de madeira de lei e lustres cristalinos, recebia diariamente centenas de visitantes. As roletas, mesas de blackjack e caça-níqueis (máquinas caça-níqueis da época) eram o centro das atenções, onde fortunas podiam ser ganhas ou perdidas em uma noite. Mas o cassino era mais do que jogatina. Seu restaurante, comandado por chefs renomados, servia pratos internacionais e iguarias locais com um toque sofisticado. O ponto alto, no entanto, eram os espetáculos. O cassino trouxe para o palco da serra nomes consagrados da música e do teatro brasileiro. Segundo reportagens arquivadas do extinto jornal “Diário de Notícias” de Porto Alegre, artistas como Emilinha Borba, Marlene e o comediante Oscarito se apresentaram no local. Rumores não confirmados, mas persistentes na tradição oral da cidade, sugerem que até figuras internacionais em viagem pela América do Sul teriam visitado o local, atraídas pela discrição e pelo luxo.

  • Apresentações de grandes estrelas da Era de Ouro do Rádio.
  • Restaurante com gastronomia francesa e italiana de alto padrão.
  • Decoração sofisticada com móveis importados e obras de arte.
  • Ponto de encontro de políticos, industriais e diplomatas.
  • Festas temáticas e bailes de carnaval que duravam até o amanhecer.

O Fechamento e suas Consequências para Canela

O destino do Cassino de Canela, assim como o de todos os cassinos do Brasil, foi selado por um decreto federal. Em 30 de abril de 1946, o então presidente Eurico Gaspar Dutra assinou a Lei Decretal nº 9.215, que proibia o jogo em todo o território nacional. A medida, influenciada por pressões de setores conservadores e religiosos, teve impacto imediato e devastador nos empreendimentos que dependiam dessa atividade. Em Canela, o golpe foi severíssimo. O cassino, principal motor econômico e turístico, fechou suas portas para os jogos. Tentou-se manter outras atividades, como o restaurante e os bailes, mas sem o fluxo de capital gerado pelas mesas de jogo, a viabilidade econômica se tornou insustentável. O edifício entrou em um longo período de decadência e abandono. Para a cidade, as consequências foram profundas: desemprego, fuga de investimentos e uma estagnação turística que duraria anos. Este período é frequentemente citado por historiadores locais como uma “idade das trevas” para o turismo canelense, que só seria revitalizado décadas depois com uma nova estratégia, focada no turismo familiar e nas belezas naturais, como o Parque do Caracol.

Renascimento como Centro Cultural: O Memorial e seu Legado

A história do emblemático edifício, felizmente, não terminou em ruínas. Após décadas de negligência e várias tentativas fracassadas de reabertura como hotel ou centro comercial, o prédio foi finalmente restaurado e reinaugurado em 1992 com uma nova e nobre função: abrigar o Memorial da Cidade de Canela, também conhecido como Memorial do Cassino. Esta transformação representa uma vitória para a preservação do patrimônio histórico e cultural. A restauração, que consumiu cerca de R$ 1,8 milhão em recursos públicos e privados (valores da época), buscou respeitar ao máximo as características originais da construção. Hoje, o memorial funciona como um museu e centro cultural. No andar térreo, os visitantes podem ver fotografias históricas, objetos da época do cassino (como fichas, cartas e um antigo caça-níqueis restaurado), e maquetes que contam a evolução urbanística da cidade. O antigo salão de baile agora sedia eventos culturais, casamentos e conferências. A visita ao memorial é uma experiência imersiva, uma viagem no tempo que permite compreender a dualidade do local: um passado de glamour efêmero e um presente dedicado à educação e à cultura permanente.

Impacto no Turismo Contemporâneo de Canela

o lendario cassino de canela

Atualmente, o Memorial do Cassino é uma parada obrigatória no roteiro cultural de Canela. Pesquisas internas da Secretaria Municipal de Turismo indicam que aproximadamente 40% dos turistas que visitam a cidade com perfil cultural incluem o memorial em seu itinerário. Ele não compete com as atrações naturais, como o Caracol ou a Ferrovia do Vinho, mas complementa a oferta turística, agregando profundidade histórica à experiência do visitante. Guias turísticos locais, como Sérgio Mendes, que há 20 anos conduz grupos pelo patrimônio histórico da serra, enfatizam que contar a história do cassino é essencial para entender a própria identidade de Canela. “Muitos turistas chegam achando que a cidade sempre foi sobre chocolate e clima frio. Ao conhecerem a história do cassino, eles descobrem uma camada de sofisticação e história que os surpreende e os faz conectar-se de forma mais rica com o destino”, relata Mendes. O edifício, portanto, segue sendo um ativo turístico, mas agora baseado na educação e na memória, não no jogo.

Perguntas Frequentes

P: Onde ficava exatamente o Cassino de Canela e o que existe no local hoje?

R: O Cassino de Canela estava localizado na Rua Dona Carlinda, nº 82, no centro da cidade, em uma posição elevada com vista privilegiada. No exato local hoje funciona o Memorial da Cidade de Canela (Memorial do Cassino), um museu e centro cultural aberto à visitação pública que preserva a história do edifício e da região.

P: É verdade que o cassino tinha túneis secretos e passagens?

R: Este é um dos mitos mais populares. A tradição oral e algumas lendas urbanas falam em túneis que ligariam o cassino a hotéis próximos ou que seriam usados para fuga ou transporte discreto de personalidades. No entanto, não há nenhuma evidência documental ou estrutural encontrada durante a restauração que comprove a existência de tais túneis. É provável que seja uma lenda nascida do ar de mistério e glamour que cercava o local.

P: Por que o cassino foi fechado se era tão lucrativo e popular?

R: O fechamento não foi uma decisão local, mas nacional. O presidente Eurico Dutra, atendendo a uma forte campanha de setores moralistas, católicos e da própria primeira-dama, proibiu todos os jogos de azar no Brasil através de uma lei federal em 1946. Portanto, o cassino de Canela fechou não por falta de sucesso, mas por uma mudança na legislação brasileira.

P: Ainda é possível ver algo original do cassino no memorial?

R: Sim. Durante a visita ao Memorial, os turistas podem ver vários itens originais, como fichas de apostas, cartas de baralho, uma máquina caça-níqueis (fliperama) restaurada, partes do piso e dos lustres originais, além de uma vasta coleção de fotografias históricas em preto e branco que retratam a atmosfera da época.

P: Existe algum movimento para relegalizar os cassinos no Brasil? Isso afetaria Canela?

R: Periodicamente, surgem propostas no Congresso Nacional para relegalizar os cassinos, sempre envolvendo debates acalorados. Caso uma lei fosse aprovada, poderia reacender o debate sobre o uso do edifício do memorial. No entanto, dado seu status atual de patrimônio cultural e centro educativo, e considerando o perfil familiar do turismo atual de Canela, especialistas em planejamento urbano da região acreditam que seria muito difícil e culturalmente indesejável retornar à função original de casa de jogos.

Conclusão: Mais que um Cassino, um Símbolo da Resiliência de Canela

A trajetória do lendário Cassino de Canela é uma narrativa poderosa sobre ciclos, transformação e resiliência. Ele nasceu como um símbolo de modernidade e luxo, viveu um curto mas intenso período de glória, foi abruptamente interrompido por forças políticas nacionais e, após um longo inverno de abandono, renasceu com um propósito completamente novo e igualmente valioso. Seu legado não é apenas arquitetônico ou nostálgico; é vivo e educativo. O edifício que um dia abrigou roletas e festas ruidosas agora guarda a memória coletiva de uma cidade, educando turistas e novas gerações sobre um capítulo fundamental de sua história. Visitar o Memorial do Cassino é, portanto, muito mais do que um passeio cultural; é uma homenagem à capacidade de uma comunidade se reinventar. Para você, turista ou admirador da história, a sugestão é clara: inclua o memorial em sua próxima viagem à Serra Gaúcha. Deixe-se levar pela atmosfera do local, imagine os vestidos longos e os smokings deslizando pelo salão, e aprecie a beleza de um patrimônio que soube encontrar, nas cartas da história, um novo e digno jogo a ser jogado: o da preservação da memória.

Share this post

Subscribe to our newsletter

Keep up with the latest blog posts by staying updated. No spamming: we promise.
By clicking Sign Up you’re confirming that you agree with our Terms and Conditions.